Área de Treinamento

Uso de Entrevistas, baseadas em questionários semiestruturados para a construção de uma Pesquisa Narrativa

Orientações sobre como integrar a narrativa na abordagem a pessoa com hanseníase.

A proposta de integrar a narrativa no ensino em saúde depende de vários fatores, alguns relacionados à pessoa/paciente e outros, aos profissionais de saúde, mas sem sombra de dúvida, o passo principal para a realização de uma prática baseada na narrativa é a obtenção de informações sobre a história da pessoa diante do processo de adoecimento e tratamento.

A principal forma de coleta de dados para a produção de narrativas pessoais é feita por meio de entrevistas as quais podem ou não seguir um roteiro previamente elaborado ou modelos já utilizados e adaptados para cada contexto. Isso ocorre, pois a realização dessas entrevistas possibilita o entendimento do processo de adoecimento e tratamento da pessoa que apresenta alguma condição de saúde, compreendendo, sobretudo, o seu ponto de vista acerca das várias etapas do processo de adoecer.

No caso da hanseníase, a realização da entrevista, que tem como finalidade ser uma conversa com a pessoa, não foca apenas na doença, mas em aspectos importantes da sua vida, procurando compreender questões relacionadas ao contexto familiar e social – como se adaptaram às mudanças trazidas com a doença e a percepção sobre limitações e preconceitos. Ademais, essa conversa com a pessoa para compreender a sua experiência permite também que o entrevistador entenda como as pessoas lidam com essas mudanças, e como constroem estratégias que possam auxiliar outras que estejam em situações parecidas.

  Um importante referencial utilizado na medicina narrativa e que poderá orientar o cuidado às pessoas com hanseníase é um roteiro de entrevista semiestruturado segundo o McGill Illness Narrative Interview – MINI. Esse roteiro foi originalmente publicada em inglês, em 2006, com intuito de coletar materiais narrativos que possam ser utilizados para avaliações quantitativas e qualitativas sobre o processo de adoecimento desses indivíduos e suas particularidades. O roteiro de entrevista é subdivido em cinco seções: (LEAL et al, 2016).

  • Seção 1: procura direcionar as perguntas quanto a narrativa sobre a experiência inicial do adoecimento, com intuito de determinar o contexto que a doença foi notada, o aparecimento de sinais e sintomas e a busca inicial a ajuda médica ou de outro caráter;
  • Seção 2: possui objetivo de entender a narrativa por meio de protótipos em que compara a sua condição com situações passadas, não vai ser utilizada durante as entrevistas com os participantes, por explorar aquilo que já está contido dentro das outras seções e por utilizar de questões que não estão associadas a condição do paciente com hanseníase;
  • Seção 3: busca entender a doença do paciente segundo a narrativa de um modelo explicativo em que o sujeito entrevistado busca com suas próprias palavras e vivências explicar a sua condição de saúde, as suas ideias sobre a experiência do adoecimento e seu letramento em saúde quanto a situação atual que ela está vivendo;
  • Seção 4: objetiva compreender a relação do sujeito com serviços de saúde e sua resposta ao tratamento, com propósito de evidenciar suas relações com a busca a serviços da saúde pública quanto a sua adesão adequada ao tratamento;
  • Seção 5: busca entender os impactos sobre a vida desse sujeito diante a história de adoecimento do mesmo, com intuito de melhor compreender as mudanças no cotidiano e nas relações desse indivíduo com familiares e comunidade.
Como conduzir uma entrevista:

As maioria das entrevistas qualitativas são estruturadas baseando-se em três tipos de questões:

  1. Questões centrais que iniciam e guiam uma conversa;
  2. Perguntas de sondagem, as quais devem esclarecer o que foi respondido nas perguntas centrais, de maneira que permita ao entrevistador melhor compreensão da resposta;
  3. Perguntas de acompanhamento, que buscam as implicações das respostas dadas pelas questões centrais.

Esses três tipos de perguntas devem ser sempre lembradas, na medida que o entrevistado avança na estrutura básica do roteiro.

Modelo do MINI:

Tabela retirada do artigo: McGill Entrevista Narrativa de Adoecimento – MINI: tradução e adaptação transcultural para o português

Referências

  • LEAL, Erotildes Maria; SOUZA, Alicia Navarro de; SERPA JÚNIOR, Octavio Domont de; OLIVEIRA, Iraneide Castro de; DAHL, Catarina Magalhães; FIGUEIREDO, Ana Cristina; SALEM, Samantha; GROLEAU, Danielle. McGill Entrevista Narrativa de Adoecimento – MINI: tradução e adaptação transcultural para o português. Ciência & Saúde Coletiva, [S.L.], v. 21, n. 8, p. 2393-2402, ago. 2016. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232015218.08612015.

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